A universidade brasileira pede uma nova reforma protestante. Eu, Martinho Lutero, após dedicar anos da minha vida ao exercício de professor universitário, manifesto minha indignação diante de uma nova Igreja que se levanta:
A Igreja CAPESólica CNPqólica Universitana (ICCU)
A pesquisa universitária brasileira, surgida da preocupação educativa e progressista voltada para o desenvolvimento cultural e sócio-econômico do nosso país, vem sendo fiscalizada por essas instituições - que tomam ares de um novo Tribunal da Inquisição - cujos teólogos definem os critérios para valorar e quantificar a produção de conhecimento. Não é necessário ser um epistemólogo para questionar a maneira como os burocratas dessas agências encaram a produção do conhecimento. Qualquer filósofo ou humanista mais ou menos informado a respeito da teoria crítica ou do pós-estruturalismo está qualificado para demolir, um a um, os pressupostos positivistas que estão colocados. Mas estranhamente eles, que teriam a obrigação moral de intelectuais para vir a público e denunciar a corrupção dos valores da pesquisa acadêmica, não o fazem. Ao contrário, aceitaram as relações entre saber-poder instituídas, se prostram diante das exigências burocráticas sem esboçar a menor resistência - repito, A MENOR RESISTÊNCIA - ao processo avassalador de dominação imposto pelas chamadas "agências de fomento", em consórcio muitas vezes com conglomerados internacionais que lucram com a comercialização do conhecimento.
O Capessismo produtivista estimula os falsos milagres de multiplicação de artigos e a transubstanciação da mediocridade acadêmica em manifestação divina. A adoração de relíquias que vem sendo promovida pelos santos sacerdotes dessa Igreja ilude os jovens com bolsas-produtividade e outras formas de salvar-se do subdesenvolvimento científico-cultural brasileiro com promessas de estudos no exterior. Mas para isso, é necessário pagar o dízimo da produtividade ao Currículum Lattes, publicando entre os eleitos do Qualis e dando graças bibliográficas aos burocratas do sistema, sacerdotes a quem esse Deus conferiu o sagrado poder de julgar todos os programas de pós-graduação do país, premiando os bons e condenando outros ao fogo do inferno.
A Universidade hoje é governada por esse medo, o medo do fracasso e o sentimento de culpa diante do não cumprimento de metas impostas pelas agências - metas formuladas por meia dúzia de iluminados, sem qualquer discussão com a comunidade acadêmica, muito menos com o reles cidadão comum. Repito: os critérios estabelecidos pelo complexo Capes-CNPq nunca passaram por uma discussão ampla e democrática, não atendendo nem às especificidades de cada área, nem às necessidades da sociedade brasileira.
Após anos de ditadura militar, todo o processo de remodelamento da Universidade Brasileira foi levado a cabo por esta igrejinha fechada, que ao longo dos anos 1990 impôs padrões de enviesados de avaliação cujos efeitos mais perniciosos foi o de apartar ainda mais a universidade da sociedade, gerando um conhecimento alienado e auto-referente. E mais: ao fazer isso, essa igreja comercializa o conhecimento em bases de dados internacionais, que "lucram" vendendo o acesso a artigos produzidos na maioria das vezes com o dinheiro público que financia as pesquisas no Brasil. A natureza desses acordos de "venda internacional do conhecimento" não é conhecida pelos pesquisadores, e do dinheiro gerado por esse comércio os autores não vêem nem a cor - pesquisas financiadas com dinheiro público a serviço do lucro privado, no melhor estilo de Brasília!
O que ganham os professores universitários com isso, então? Ganham promessas de ingressar no reino dos céus: ser membros de um programa de pós-graduação, ter verbas para financiar seus projetos de pesquisa (poder trabalhar mais!) e possibilidades de uma bolsa de pós-doutorado no exterior - quem sabe até conhecer um autor presente em suas referências bibliográficas!
Soberba, eterna soberba! Eis o pecado que mais intelectuais tem arrastado à perdição, desde os tempos imemoriais. Soberba, que alimenta a hipocrisia...
É para esse Deus da CAPES-CNPq que os professores universitários brasileiros rezam todos os dias: "e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal..." O mal é a nossa educação pública, que permanece à míngua, tornando-se quase inviável a formação de professores, na falta de condições dignas para o exercício da profissão nas escolas. Na Universidade, equivale às atividades de ensino e a extensão, desprezadas pelos "intelectuais produtivos" com o mais descarado esnobismo. Na divisão de castas estabelecida por esta Igreja, aulas na graduação são tarefas para serviçais, professores "pouco qualificados", muitas vezes em situação provisória de trabalho. E as atividades de extensão, quando não servem para conseguir cobaias para futuras pesquisas, são vistas como um piedoso trabalho de caridade feito por alguns santos professores, o clero progressista que faz a "opção pelos pobres", que acreditam na "Universidade da Libertação", e cuja moral franciscana não raro entra em conflito com o ethos produtivista. "Coitado! Ao invés de se dedicar a produzir uma tese de teologia e discutir com os doutores da lei, ele prefere passar seus dias ajudando os pobres. Não será recompensado com uma visita a Roma, não conhecerá o Papa nem as santas relíquias, mas certamente será recompensado após a morte com o reino dos céus...". E lá se vão os franciscanos, conscientes da importância de sua tarefa salvacionista, mas sem coragem para se revoltar contra a Igreja.
Foucault já derrubou as bases do cientificismo pretensioso. Mas é preciso, mais do que nunca, derrubar seus sacerdotes, principalmente na área das ciências humanas, em que é tão comum ver "consultores e pareceristas" que rezam pela cartilha dos pós-estruturalistas franceses em seus artigos e conferências iluminadas, mas não deixam de acender também uma vela para o positivismo classificatório CAPES-CNPq.
Eu, Martinho Lutero, afirmo que ninguém se salvará apenas com boas obras. É preciso demonstrar nossa fé: mais do que nunca, a fé na interpretação livre das escrituras, a fé na comunidade acadêmica e o papel que ela deve desempenhar na sociedade.
Ai de vós, fariseus hipócritas!